Ele estava lá. Sossegado à
margem de um rio, repousando sob uma rocha ou, quem sabe, escondido na mais
escura das cavernas. E, de repente, uma explosão, um peneirar ou o atrito de
uma britadeira o desperta. O tira do lugar de comodismo, do conforto. Do descanso.
A princípio, isso tudo pode
parecer assustador. Um rapto sem autorização. Uma brusca retirada do seu lugar.
De sua vida calma e monótona. Do seu abrigo.
Estuda-se lentamente sua
veracidade. Passa por uma mão, duas. Dez. E, ao ter a certeza do que se trata,
a efusiva felicidade é evidente. Algo precioso foi descoberto. Tem que se
comemorar. Pega-se o objeto, ainda bruto, e o vende. Aquela pequena pedra, que
outrora estava em um sono solitário, ganha destaque. Mas, ainda assim, continua
bruta.
Levam-na ao mercado de
pedras preciosas. Ah, um grande negociante se aproxima. Examina,
detalhadamente, e: Pimba! - Essa é minha!
O negociante (que também é
Expert em lapidação) a embrulha em um tecido especial e a coloca,
cuidadosamente, no bolso e, assim, segue para começar o trabalho.
Sua ansiedade em adiantar o
procedimento é evidente. E, ao chegar, inicia a técnica incrivelmente
meticulosa. Pouco a pouco, o brilho começa a surgir. A excitação é notória. Um
diamante foi descoberto e, em breve, estará no pescoço, braço ou dedo de
alguém.
Porém, em nenhum momento se
nota o interesse em saber o que ela (a pedra) está sentindo. Afinal, é apenas
uma pedra. Todavia, o lapidar dói. Todo o processo é doloroso. Arrancam-se
alguns pedaços, talham outros. Lixa, pole. Machuca! Até chegar a forma final,
tudo dói. Desde o início a dor é uma constante. Igual à vida.
Todos nós somos, no fundo,
um pouco diamantes. Somos, muitas vezes, retirados bruscamente de nossa zona de
conforto. Sim, lá da rocha, da margem do rio ou de nossa linda, escura e
confortável caverna. Sem um aviso prévio. Sem a preocupação em saber se essa é
a nossa vontade. Então, sofremos, choramos. Às vezes, nos desesperamos.
Sair dói. Crescer é
desesperador. Mas, só conseguiremos um dia adornar um pescoço, braço ou mão, se
nos sujeitarmos a essa contristante lapidação chamada vida.
Liberte-se. Subjugue-se a
dor de hoje, para abrir um largo sorriso amanhã.
Jonatan Santana