domingo, 3 de fevereiro de 2013

Sobre a lapidação


Ele estava lá. Sossegado à margem de um rio, repousando sob uma rocha ou, quem sabe, escondido na mais escura das cavernas. E, de repente, uma explosão, um peneirar ou o atrito de uma britadeira o desperta. O tira do lugar de comodismo, do conforto. Do descanso.
A princípio, isso tudo pode parecer assustador. Um rapto sem autorização. Uma brusca retirada do seu lugar. De sua vida calma e monótona. Do seu abrigo. 
Estuda-se lentamente sua veracidade. Passa por uma mão, duas. Dez. E, ao ter a certeza do que se trata, a efusiva felicidade é evidente. Algo precioso foi descoberto. Tem que se comemorar. Pega-se o objeto, ainda bruto, e o vende. Aquela pequena pedra, que outrora estava em um sono solitário, ganha destaque. Mas, ainda assim, continua bruta. 
Levam-na ao mercado de pedras preciosas. Ah, um grande negociante se aproxima. Examina, detalhadamente, e: Pimba! - Essa é minha!
O negociante (que também é Expert em lapidação) a embrulha em um tecido especial e a coloca, cuidadosamente, no bolso e, assim, segue para começar o trabalho. 
Sua ansiedade em adiantar o procedimento é evidente. E, ao chegar, inicia a técnica incrivelmente meticulosa. Pouco a pouco, o brilho começa a surgir. A excitação é notória. Um diamante foi descoberto e, em breve, estará no pescoço, braço ou dedo de alguém. 
Porém, em nenhum momento se nota o interesse em saber o que ela (a pedra) está sentindo. Afinal, é apenas uma pedra. Todavia, o lapidar dói. Todo o processo é doloroso. Arrancam-se alguns pedaços, talham outros. Lixa, pole. Machuca! Até chegar a forma final, tudo dói. Desde o início a dor é uma constante. Igual à vida.
Todos nós somos, no fundo, um pouco diamantes. Somos, muitas vezes, retirados bruscamente de nossa zona de conforto. Sim, lá da rocha, da margem do rio ou de nossa linda, escura e confortável caverna. Sem um aviso prévio. Sem a preocupação em saber se essa é a nossa vontade. Então, sofremos, choramos. Às vezes, nos desesperamos.
Sair dói. Crescer é desesperador. Mas, só conseguiremos um dia adornar um pescoço, braço ou mão, se nos sujeitarmos a essa contristante lapidação chamada vida. 
Liberte-se. Subjugue-se a dor de hoje, para abrir um largo sorriso amanhã.

Jonatan Santana

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