Certa
noite, falei comigo mesmo sobre a vida, sobre o tempo que vivi e aproveitei ao
lado dela. Sobre os dias que ela, a vida, passou comigo. Sim, eu sei que
cresci. Há alguns anos não sou mais aquela criança. Aquele menino indefeso,
preocupado. Assustado. Mas algumas coisas não mudaram, nem vão mudar nunca,
certas coisas permanecem. E mesmo que eu não soubesse o que ia acontecer em
minha caminhada, depois de dezenas de problemas, traumas, fatos marcantes etc.
acabei vendo pra onde minha grande amiga me dirigiu e, enfim, percebi que não
podia deixar meu eu fugir de mim
Eu queria ter ficado ali, naquela noite, em
meio àquele turbilhão de pensamentos e lembranças, mais do que qualquer coisa,
eu desejei ficar ali. Parado, vendo o tempo passar. Mas, infelizmente não pude.
Quando
era adolescente, pensava no quão difícil seria vencer a tragédia da primeira
espinha. Nessa época, pensava nelas e, automaticamente, lembrava de suas quatro
faces: raiva, negação, culpa e depressão.
Mas,
o que são as espinhas perto dos grandes desafios pessoais, profissionais e
familiares que, eternamente temos que enfrentar? Sabe, tenho uma saudade danada
delas. De só ter essa grande preocupação.
Crescer
dói! Maltrata. Mastiga-nos aos poucos, em um processo de degustação altamente
doloroso e impiedoso. Crescer nunca é fácil, você se apega a coisas que já não
existem mais. Você se pergunta o que ainda está por vir? Por que isso ou
aquilo? Há também, momentos em que se nota que está na hora de deixar para trás
tudo que já era e olhar para frente. Pra algum alvo imaginário ou inexistente. Outros dias, novos dias, dias por vir. Dias
melhores que teimam em não chegar.
Crescer
acontece num simples palpitar de coração. Um dia a gente está de fraldas, no
outro já estamos trocando as fraldas de
alguém. Mas as memórias da infância ficam por um longo tempo. Eu me lembro de
um lugar... uma cidade... uma casa como muitas outras casas... Um jardim como
muitos outros jardins... Um cachorro como muitos outros cachorros... uma rua
como muitas outras ruas. O lance é o seguinte, depois de todos esses anos, eu
continuo olhando para trás. Maravilhado! Como eu fui feliz, mesmo com todos os
problemas. Aliás, esses problemas me fizeram ser quem eu sou hoje. Então, de
certa forma, eles me fizeram muito bem. Mais forte. Melhor!
E,
quando eu me deparo com alguns questionamentos e acusações, lembro que é muito
fácil assumir uma posição a respeito de alguma coisa quando não há risco
nenhum. É fácil dar esmola para um pobre se você guarda o resto do dinheiro em
seu bolso e fala com orgulho: “Fiz a boa ação do dia”. É fácil tomar posição
contra a guerra, desde que ninguém peça que você se sacrifique. É fácil viver
sob o marasmo da religiosidade, das máscaras que uma cultura impõe e muito
mais. É fácil ser normal. Ser aquilo que todos sonharam que fosse. O difícil é
ser você mesmo. Ter autenticidade, respeito e inteligência, para ser quem você é,
sem usurpar nem desrespeitar a felicidade de ninguém. Nem muito menos deixar de
agradar Aquele que, te ama incondicionalmente e, em nenhum momento te acusa ou
te despreza. Enfim, o difícil é ser a verdade em um mundo de hipocrisia e
mentiras.
Um dia em nossas vidas descobrimos que nem
todos os caminhos nos levarão de volta pra casa, mas, eu insisto em procurar o
caminho e chegar até Aquele que nunca
rejeitará quando eu bater em sua porta.
Jonatan Santana
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